Demissão de Argel, a ponta do iceberg pela falta de planejamento



O técnico Argel Fucks não resistiu a eliminação na Copa do Nordeste pelo arquirrival Bahia e acabou sendo demitido pela diretoria do Vitória.

Quem está de longe se surpreende como um treinador com 68% de aproveitamento (2016/17) pode ser demitido. No entanto, quem acompanha as atuações da equipe desde o início da temporada, analisando os nomes do elenco, observa que o time tem potencial para estar em outro patamar técnico e tático.

Respeito a visão de Argel sobre o futebol, e não acho que a proposta reativa de jogo seja o seu problema, mas sim, os conceitos utilizados dentro de seu modelo de jogo.

Em relação a esquema tático, o time Argel marcava no 4-4-2, em bloco médio baixo, onde a pressão acontecia a partir dos volantes adversários, mesmo enfrentando equipes inferiores tecnicamente. O conceito de marcação era encaixe individual por setor, com curtas e longas perseguições. Eis o primeiro problema, pois, além do desgaste excessivo que gerava na equipe tendo que jogadores como Cleiton Xavier percorrer longas distâncias para marcar, quando o time recuperava a bola, os jogadores estavam longe de sua posição inicial, deixando a equipe "bagunçada" no momento ofensivo. Tal situação poderia ter sido resolvida com o conceito de marcação zonal, onde a equipe buscaria fechar os espaços, criando superioridade numérica no setor onde a bola se encontra, o que diminui consideravelmente as perseguições. E não estou dizendo que jogador A ou B não devem marcar, muito pelo contrário, todos marcam, porém, por zona, isso tende a ser mais eficaz.

A marcação zonal se fazia muito mais necessária ainda por conta das características do elenco, que possuem jogadores técnicos, mas sem tanto vigor físico para longas perseguições e embates 1 x 1.

Argel não tinha muito domínio com os conceitos para propor o jogo quando necessário. Porém, principalmente no primeiro semestre, onde a maioria dos adversários são inferiores tecnicamente, não dá para ver o time superior sendo reativo, deixando o "pequeno" com a bola, e vencendo por 1 x 0 equipes semi-amadoras. E quando não se sabe utilizar bem conceitos como amplitude, por exemplo, fica complicado propor jogo. Destaco que em algumas partidas a equipe até tentou, mas sem essa ajuda extra-campo, é complicado.

No último clássico BaxVi, o Vitória esteve acuado, tentando ser reativo, mas sem conseguir jogar quando tinha a bola. Isso pois, o treinador do Bahia, Guto Ferreira, criou superioridade numérica, principalmente pelos lados do campo, isolando os pontas David e Euller. Argel com pouco repertório e leitura de jogo, não enxergou a possibilidade de tentar atuar com dois meias por dentro num 4-1-4-1, por exemplo, e tirar a "criação" do lado de campo para o centro, acabou "morrendo" no seu esquema (4-2-3-1), mudando apenas as peças, o que qualquer torcedor poderia fazer sem maiores dificuldades.

Mas a culpa do insucesso não é apenas de Argel Fucks. O treinador de pouca variação tática e conceitos ofensivos, também sofreu por conta das características do elenco que lhe foi entregue. Não esquecendo de destacar que alguns nomes também foram indicações do treinador, no entanto, o grande erro foi a renovação de Argel feita pela diretoria.

Primeiro, como se renova com um treinador de modelo de jogo reativo, e com marcação por encaixes, se a ideia é contratar meias lentos e técnicos como Pisculichi, Dátolo, além de já se ter Cárdenas no elenco? Como não pensar em dar prioridade e investir um valor maior nos jogadores de lado de campo, como pontas (principal forma de ataque no modelo Argel)?

Hoje, exceto David, o Vitória não possui outro ponta de força e velocidade, que dava a possibilidade de Argel gritar: "Toca no Marinho", como ficou caracterizado em 2016. Paulinho e Pineda, as outras opções, será que seria o ideal para uma função tão importante no modo de jogar de Argel?

Se você monta um elenco técnico, que tem totais condições de manter a posse de bola, trocar passes, envolver o adversário e, consequentemente propor o jogo, deveria-se pensar em um treinador que domina esses conceitos.

O Vitória agoniza por pensamentos mais modernos, que olhe para o futebol como ele é hoje. A experiência de todos é válida sim, mas até os experientes precisam de humildade para reconhecer que as ideias de jogo estão ultrapassadas e que precisam se atualizar.

Como cobrar estudo e atualização de treinador se quem comanda o clube, a imprensa e a torcida não buscam mais conhecimento?


Por Cassio Santos/@CassioNSantos
Foto: Divulgação

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